sábado, 11 de abril de 2015

Camila e outras tantas

Eu sai da casa da Camila, e como sua mãe me ensinou, segui à passos lentos pela rua desprovida de asfalto.  Era só barro.  As horas contavam 7:30h, e a luz do sol já reinava de modo a clarear o suficiente para aguçar os sentidos em direção a vizinhança que meus olhos captavam à medida que ia avançando.
Por hora, o sol não estava tão quente e não me impossibilitou que eu começasse a analisar o modo das pessoas que eu avistava, costume que eu sempre tive.
 Eu me sentia bem, tinha acordado cedo, coisa que há muito não fazia, e por isso, o dia ao meu redor era quase que inédito. Principalmente porque aquela rua não me era tão familiar.
Tinha umas crianças já com jeito de adultas, que conversavam com malícia caminhando com o olhar na minha direção. Eu não me detive, respondi aos olhares  sem medo, não por querer intimidar, mas para poder extrair e concluir o pensamento que já estava bem longe.
O que pode fazer crianças deixarem de ser crianças? E o que de fato elas pensam se  elas estiverem apenas brincando de criar personagens que imitam os adultos de suas rotinas?
O que as levam a ter comportamentos hostis ou a fazer piadas já com tons preconceituosos?
É tão infeliz saber que certos comportamentos são aderidos quase que por osmose, e involuntariamente por seres tão pequeninos.
As nossas crianças não pedem para ser o espelho da hostilidade e do preconceito. Elas simplesmente acham que é o mais certo a se fazer. Assim como os pequenos hábitos do dia-a -dia são aprendidos no lar em que elas nascem.
Caminhei mais um pouco, já estava perto de virar à direita, quando pude avistar um rapaz meio roliço, com a barba por fazer e o cabelo um pouco grisalho. Ele vestia uma farda vermelha de algum depósito. Desceu a garagem da sua casa com uma bicicleta bem usada e foi-se na direção que eu já vinha.
Os trabalhadores também tem rostos, eles tem casa, eles tem vida, eles tem vizinhos, eles tem sono e preguiça, eles tem medos, mas também tem alegrias.
Eles  gostam de poder descansar na porta de casa, observando o movimento. Nesse momento, eles não eram esses, eles vestiam a farda que os deixavam sem alma, sem âmago, sem poder e sem emoções. Eu era a agente observadora dessa situação.
É que eu sabia que o fulano de farda que a acabara de descer a garagem da sua casa, provavelmente estava indo para um supermercado, um depósito de bebidas, uma padaria talvez. Mas não para usufruir, saciar o paladar, observar cautelosamente o movimento, mas para, freneticamente, atender pedidos. (Ou seriam ordens?)
Sem poder de pensamento e de hesitação, o trabalho ia se estender até o final do dia. Não haveria mudanças no decorrer do expediente em que o moço pudesse descansar. Eu sabia que seria  o tipo de trabalho repetitivo, que é o mais cansativo de todos. É o modo sistemático adotado por  por todas as empresas.
E não é difícil saber isso, Você sabe que pode ir  às nove da manhã em um supermercado, e no mesmo dia no final da tarde, a pessoa que te atendeu de manhã, vai estar atendendo outra pessoa do mesmo jeito, e você será a próxima novamente.
Eu tinha que caminhar mais um bocado, a Dona Nielma, mãe da Camila, tinha me dito que o melhor lugar para pegar a condução para o destino que eu ia, era onde ficava os Correios, e eu, como tinha achado um momento propício para observação, parei de me importar com a hora que eu teria que chegar.
À passos lentos, avistei uma senhora na calçada de uma casa, do lado direito da pista de barro, ela estava varrendo. E isso não fez ela deixar de responder ao meu pedido de informação com muita simpatia. De forma solicita, ela me deu um sorriso e me desejou bom dia depois de saciar a minha dúvida. É que eu já não tinha mais tanta certeza das direções que eu tinha que tomar.
Não sei se ela era trabalhadora ou se fora outrora, mas nesse segundo caso, não pude deixar de pensar como é curioso que dificilmente alguém que já lutou tanto nessa vida, nunca deixa de fazê-lo um dia sequer.
Não que varrer uma calçada signifique lutar. Mas varrer as sete e tanta da manhã é sinônimo de desempenho, de aceitação, de disciplina. Significa que você não vai aceitar ter  uma vida tão mansa assim. Significa que você acha que não pode estar assistindo televisão ou praticando o tão delicioso ócio, sem antes "pegar na inchada".
 Nesse caso, é involuntário também? A verdade é que eu observo a vida sendo cada vez mais alheia ao que realmente queremos ou pensamos. Conceitos, deveres, hábitos são introjetados no seu modo de pensar. A lei que diz que você precisa trabalhar para se sustentar, vem com um pacote que te diz que esse trabalho é árduo, é repetitivo, é rotineiro, e diz também que você não pode se voltar contra o método que está trabalhando.
 Eu começo a ver o quão comum é encontrar pessoas com as mesmas características, com os mesmos hábitos. E com a  reprodução dos discursos que não precisam ser escutados, eles entram em nós, sem pedir permissão.
No final das contas, eu já sei porque saí da casa da Camila tão observadora. Já quando eu me aproximava da rua que ia dar nos Correios, me lembrei da conversa que tivemos ontem.
Camila estava muita desapontada, pois tinha sido demitida do emprego. E nesse intervalo de momento, uma fala veio a minha cabeça: "Estamos fazendo cortes, e começaremos por você."
 Essa tinha sido a justificativa do patrão de Camila.
A questão é:  em que parte dessa vida introjetaram uma coisa tão bizarra na sociedade, que é dissecar um ser humano se ele estiver na condição de um trabalhador? Não estou sendo exagerada.
Trabalhadores são confundidos o tempo todo com objetos, são mais descartáveis que os bens desses que descartam pessoas.
O problema é que ela sempre esquece de deixar sua alma, suas emoções, seu âmago, seu instinto observador e sua alegria em casa, para poder ir trabalhar. Na verdade Camila não consegue. Quem consegue, afinal?

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