domingo, 4 de dezembro de 2011

Coca- cola a café. Era umas das poucas coisas que eu sabia sobre ela.

- Qualquer filme assim meio triste, meio feliz, meio romântico, meio assustador. Pode ser cômico também.
Ahh! E...
- Espera. É só um filme, querida!
- Exatamente. Já que só poderemos assistir a um filme hoje, quero que tenha as características dos mais variados tipos de filmes. Essa foi a primeira resposta da mulher que deixava Francisco sempre perplexo. Sempre hipnotizado, e condicionado a olhar fixamente o que parecia ser a coisa mais importante para ele no momento. Pelo menos por essa noite.
- A resposta fora a primeira da noite.
- E continuando a conversa, Francisco se recompôs do estante em que ela tinha o deixado sem ação e prosseguiu: Meu bem, será difícil encontramos um filme tão completo. O que você acha de escolhermos filmes para esta semana e hoje assistiremos a apenas um tipo de filme.
- Tudo bem. Podemos ver um de drama.
- Nossa! Foi o único tipo que ela não tinha mencionado a principio. E era exatamente o tipo de filme que eu mais gostava. Pensou Francisco.
Então colocaram o filme.
"Trágico. Ele tinha se apegado aos detalhes"
Sim. Esse era o nome do filme.
A menina estava vidrada no filme desde o trailer, enquanto Francisco estava focado no nome do filme, embora já estivesse passando a 36 minutos.

Como me sinto estranho hoje. Não conheço essa garota há dois dias e parece que ela já tomou toda a minha atenção.
Será que ela é assim com todos? Parece ter o dom de roubar todo e qualquer momento para ser destinado a um olhar.
Aquele bem preciso, aquele que só podia ser voltado para ela.
Eu não sabia o que estava sentindo. Mas eu podia dizer o que estava pensando.
E não é fácil de errar.
O título do filme me fez voltar as 48 horas anteriores que eu tinha passado com ela. As mais incríveis 48 horas da minha vida.
Nos conhecemos em uma banca de revista.
Eu estava comprando apenas uma água.
Ela? Ah, ela estava linda.
Ela era linda.
Bem, o que ela estava fazendo na banca eu não sei dizer ao certo. Talvez ela estivesse escolhendo um daqueles livrinhos de bolso. Deduzo isso, porque sua expressão era de indecisão, e se não me engano ela estava olhando pra um desses livros.
Realmente todo e qualquer outro detalhe que não fosse o seu rosto delicado e ao mesmo tempo bastante expressivo parecia ser desprezível no momento.
Só que isso foi até eu ouvir a voz dela.
Nem muito grave, nem um pouco fina. Era única. Um sotaque que não parecia ser o meu.
Sabia. Ela só podia ser de um lugar ainda não descoberto.
Um lugar colonizado por uns feiticeiros dos bons.
Engraçado como meu pensamento ia longe. E daqui pra frente ia ser sempre assim.

Voltando ao primeiro encontro...
Preciso parar de desviar os rumos do enredo sempre que a protagonista é ela.

Caros leitores, vocês podem pensar que pude ouvir a voz dela porque me dirigi a ela.
E no entanto não foi isso que aconteceu.
Se se lembras bem o motivo pelo qual eu estava ali era sede.
E por mera coincidência ou não, ela também estava.
E foi a primeira coisa que ela tinha me pedido.
"Ah! Você pode me dar um pouco? Tou morrendo de sede e meu dinheiro acabou. Só dá pra comprar o meu livrinho, que por incrível que pareça eu ainda não consegui escolher."
E antes de dizer "Claro", soltei um risinho e fiz um comentário para impressioná-la:
- Você é uma daquelas que sobreviveria sem água com a condição de existir livros pra suprir a falta. E dei a água a ela.
- Ela não falou nada. Apenas riu e disse obrigada, devolvendo a água pra mim.
E apesar de triste por ela não ter respondido e parecer ter desprezado meu comentário, agradeci por ela ter rido.
Que sorriso! Fiquei com vontade de beijá-la.
Mas a única coisa que fiz foi convidá-la pra tomar um café. Pessoas que leem geralmente gostam de café, pensei.
Sua resposta foi: "Claro, mas você toma o café e eu tomo uma coca-cola bem gelada."
Essa menina estava me fascinando. Porque vocês não sabem, mas sou fascinado por pessoas que são o oposto do que eu penso. Misteriosas evidentemente.

-Lindo, não?
O filme tinha acabado e eu não tinha prestado atenção em nada.
Então apenas falei, me recompondo para o mundo real:
- Trágico, ele tinha se apegado os detalhes.
-Ela riu.
E como de praxe, fazia eu rir mais do que ela só pela felicidade de ter ganhado um sorriso dela.

E quando eu estava pensando que a minha necessidade era ter aquele sorriso todos os dias pra mim, ela me interrompeu, dizendo:
Foi ótimo te conhecer, Francisco.
É uma pena que não poderemos assistir os filmes dessa semana.
Irei embora hoje de madrugada. Deixei minhas malas prontas antes de vim pra cá.
- Como? Por que você não me falou nada?
- Precisava ter você pra mim por um instante, nem que fosse para assistir um drama, mas com a condição de ver você feliz. Adeus!
Foi a última resposta da noite.

Faltou chão.

A única coisa que pude pensar além de ter descoberto o porque da necessidade dos mais variados filmes em um só que ela tinha pedido de início, foi que a saudade era o mais terrível sentimento do mundo.
Comecei a sentir desde já.

O trágico é que eu tinha me apegado aos detalhes.